"Força e pudor, liberdade ao povo do Pelô." Foi essa a frase que compartilhei essa semana nas minhas redes sociais. A frase vem de uma música antiga, mas forte. Lançada pelo Olodum no meado dos anos 90, se entitula "PROTESTO DO OLODUM". A canção, como o próprio nome sugere, é sobre protesto. Um Protesto em favor dos excluídos, dos que, de fato, moram (e não só visitam) o Pelourinho, dos que sofrem e lutam pela sobrevivência. Um protesto que atinge a quem escuta e faz brotar de dentro um sentimento de revolta. Não nasci no Pelourinho e não passei por um terço do que muita gente passa quando se trata de preconceito, associado a questões raciais, financeiras e sociais. Mas, compartilho dessa luta. Quem sofre é meu irmão. Assim como quem vence, como quem é rico, pobre, preto, pardo, amarelo ou branco. Nesse momento estamos aqui: eu e você, um escrevendo, outro lendo. Outros estão lá, na rua, nos casarões, nas margens. Não consigo apenas conviver com isso, deixando passar em branco. Ainda mais, quando a grande maioria sofre não por culpa própria. Mas, graças a uma organização social que delimita oportunidades e manipula os menos favorecidos. Os protestos do Olodum são inúmeros, desde a decáda de 80 são trazidos à tona por bandas baianas que cantam em seus repertórios letras que desmascaram o lado mais pobre da cidade, de onde vem a mão-de-obra que segura as cordas pra brincarmos no carnaval, que "cata" nossos lixos e que nos auxilia fazendo o cafézinho no escritório ou dando duro nos serviços domésticos. Tais atividades vêm acompanhadas do famoso jargão: "Tá vendo? não quis estudar!". Mas a questão é mais complexa que um jargão superficial e maldoso. Não é tão simples quanto um "querer", no sentido de vontade própria. A questão se sustenta num sucinto sistema de exclusão, com base na manutenção da dualidade rico X pobre e todas as suas devidas implicações, inclusive o silenciamento das músicas de protesto. Não se canta mais sobre a pobreza, sobre o Pelourinho. Se canta sobre alegria, sobre buscar Dalila e ser Praieiro. Acho legal que cantemos sobre Dalilas, praias, verão. Mas, não acho justo silenciar os protestos. Silenciar os inocentes.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Reencontro
Cheguei. Perguntei se aceitava crédito. O garçom me olhou com uma cara de desprezo e disse: "está escrito ali, não enxerga? "Fingi que estava errado por perguntar. Sentei . Meus amigos disseram: “não te perturba isso? Eu tou me sentindo humilhado.” Preferi deixar passar em branco. Mas, no fundo, eu sentia pena.
Demoramos de pedir. Pareciam incomodados com nossa presença. Como se fossemos um estorvo por escolher aquele lugar pra conversar. Ainda assim permaneci. Não sabia o que aquele rapaz passava em sua vida, mas percebi que não estava ali por que queria.
Gosto de tratar todos bem, não por obrigação, nem para ganhar dinheiro. Não sou cruel. Na hora de levantar, recebi réplicas por querer pagar a gorjeta. Terminei não pagando: “Não vou gastar um centavo com esse cara”, pensei. A moça do caixa riu de minha atitude. Ela não sabia, mas eu tinha motivos.
Fui embora, orgulhoso por fora, remoído por dentro. Não acreditava em revanche, vingança. Não tinha o direito de julgar ninguém, embora o tivesse feito de forma tão superficial, e, barata. Mas, me sentia estranho por não me adaptar, por não querer devolver com a mesma moeda, por não compartilhar do mesmo sentimento de vingança. Poderia apenas ter dado cinqüenta centavos ao cara, ir embora e nunca mais voltar lá. Não queria ser fraco e terminei sendo, de uma forma infinitamente pior.
Eu estava me encontrando.
Demoramos de pedir. Pareciam incomodados com nossa presença. Como se fossemos um estorvo por escolher aquele lugar pra conversar. Ainda assim permaneci. Não sabia o que aquele rapaz passava em sua vida, mas percebi que não estava ali por que queria.
Gosto de tratar todos bem, não por obrigação, nem para ganhar dinheiro. Não sou cruel. Na hora de levantar, recebi réplicas por querer pagar a gorjeta. Terminei não pagando: “Não vou gastar um centavo com esse cara”, pensei. A moça do caixa riu de minha atitude. Ela não sabia, mas eu tinha motivos.
Fui embora, orgulhoso por fora, remoído por dentro. Não acreditava em revanche, vingança. Não tinha o direito de julgar ninguém, embora o tivesse feito de forma tão superficial, e, barata. Mas, me sentia estranho por não me adaptar, por não querer devolver com a mesma moeda, por não compartilhar do mesmo sentimento de vingança. Poderia apenas ter dado cinqüenta centavos ao cara, ir embora e nunca mais voltar lá. Não queria ser fraco e terminei sendo, de uma forma infinitamente pior.
Eu estava me encontrando.
Paradigma da solidão
Era o último dia do ano, os fogos cintilavam no céu e eu estava só. Só por dentro, de uma forma que eu já havia me sentido antes, mas que não tinha dado a devida importância. Contudo, dessa vez foi mais estranho. Estava rodeado de amigos, pessoas queridas, e ainda assim, era como se estivesse sem ninguém. Dei-me conta então de uma forma de preencher aquele vazio, talvez funcionasse. Saí andando sem falar, sem dar satisfações. Andei alguns metros a beira-mar, rodeado de pessoas vestindo branco, desejando bons votos pro ano que se iniciava. Não conhecia viva alma naquele local, só os amigos que permaneciam a alguma distância, no meu ponto de partida. Andei, andei e andei, por fim o vazio por dentro se preencheu. A praia já estava deserta, mas não me sentia só, nem oco. Pelo contrário, me sentia cheio e familiar. Estava comigo. Tinha encontrado minha mais importante companhia. Fiquei concentrado no ano que se iniciava, sem precisar me manter agradável, risonho e falante, sem me importar com trabalho, estudos, ou qualquer outra preocupação mundana. O ar se tornou mais leve, o cheiro do mar mais suave e a areia era como veludo roçando meus pés descalços. Sentei perto das marolas e apreciei o ir e vir das ondas. Então compartilhei comigo mesmo aquele momento de plenitude: “estou vivo”, pensei. Passei alguns minutos naquele estado de transe, até me dar conta que já era suficiente. Levantei com as mãos apoiadas na terra úmida e vi, ao longe, as luzes das barracas anunciando a aglomeração de gente. Bom, era hora de voltar pra solidão.
Mudança.
Eu não quero dar por nenhuma mudança.
Quero permanecer intacto, sem ter de me adaptar.
Não quero o novo, quero o antigo
Roda, gira, sem parar
Roda, gira e para
o retrato ganha uma alma que já não tem
Salta da moldura
espera a antiga alma, mas ela não vem
A mudança demora
Pode ser incerta, como o próximo instante
Ela vem, mas não acerta
Ah, se pudesse ser como era antes!
Quero permanecer intacto, sem ter de me adaptar.
Não quero o novo, quero o antigo
Roda, gira, sem parar
Roda, gira e para
o retrato ganha uma alma que já não tem
Salta da moldura
espera a antiga alma, mas ela não vem
A mudança demora
Pode ser incerta, como o próximo instante
Ela vem, mas não acerta
Ah, se pudesse ser como era antes!
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